quarta-feira , junho 3 2020
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Justiça suspende operação na barragem da maior mina da Vale em MG

Decisão foi tomada em ação movida pelo Ministério Público de Minas contra a mineradora

A Justiça de Minas Gerais determinou que a Vale suspenda a operação das barragens da mina de Brucutu, que produz 30 milhões de toneladas de minério de ferro ao ano e é a maior da empresa no estado.

A decisão foi tomada em ação civil pública movida pelo Ministério Público de Minas contra a mineradora.

O processo está em segredo de Justiça, mas a Vale confirmou a notificação judicial e informou que irá recorrer da decisão.

Na prática, segundo a empresa, a decisão paralisa as atividades do complexo de Minas Centrais, responsável pela maior fatia de produção da Vale no estado, localizado no município de São Gonçalo do Rio Abaixo, cidade a 124 quilômetros da capital mineira.

A ação corre na 22ª Vara Cível de Belo Horizonte. Segundo a decisão judicial, a empresa é obrigada a paralisar as atividades de oito barragens de rejeitos na região. A empresa fica obrigada a se abster de “lançar rejeitos ou praticar qualquer atividade potencialmente capaz de aumentar os riscos das barragens”.

A mineradora informou que as três barragens com tecnologia antiga –Forquilha I, II e III– já não estavam operando mais e que elas integram o plano de descomissionamento de todas as estruturas do tipo no Brasil, anunciado depois da tragédia de Brumadinho.

A Vale afirmou que as demais barragens que terão de paralisar as atividades são de tecnologia “convencional”. À exceção da barragem de Laranjeiras, as outras quatro, segundo a empresa, não recebem rejeitos. Elas teriam “propósito exclusivo de contenção de sedimentos e não de disposição de rejeitos”, segundo a mineradora. As outras quatro barragens que deverão ser paralisadas de acordo com a decisão judicial são Menezes II, Capitão do Mato, Dique B, Taquaras.

A companhia informou que suas barragens têm licenciamento ambiental e estão com os atestados de estabilidade em dia. “A Vale entende, assim, que não existe fundamento técnico ou avaliação de risco que justifique uma decisão para suspender a operação de qualquer dessas barragens”, diz a empresa em nota.

PRODUÇÃO

A Vale anunciou na noite desta segunda que suspendeu as operações no complexo de Vargem Grande, em Nova Lima (MG). A cidade de 93 mil habitantes possui 19 barragens da empresa. A mina com capacidade de produzir 13 milhões de toneladas de minério de ferro ficará desativada para o trabalho de descomissionamento das barragens do complexo.

A empresa já havia anunciado que Nova Lima estava no processo de paralisação de minas com barragens com tecnologia de construção a montante.

A companhia afirma que tem 10 estruturas desse tipo a serem descomissionadas no Estado, o que gerou preocupação em prefeitos de cidades dependentes da mineração.
Vale bateu recorde de produção no Brasil no terceiro trimestre do ano passado, tendo atingido a marca de 104,9 milhões de toneladas de minério de ferro no período.

Desse total, 28 milhões de toneladas vieram dos complexos de Itabira, Mariana e Minas Centrais, este último que abriga a mina de Brucutu.

Esses três complexos compõem o chamado sistema Sudeste da mineradora, com unidades espalhas por Minas Gerais.

Esse sistema respondeu por 27% da produção da vale no 3º trimestre. A empresa não divulga quanto cada mina produz individualmente.

Já a mina do Córrego do Feijão, cuja barragem se rompeu no último dia 25, faz parte do complexo do Paraopeba, que, junto com os complexos de Vargem Grande e Minas Itabirito compõe o sistema Sul da empresa.

Juntas, as unidades do Sul produziram 22,4 milhões de toneladas no terceiro trimestre do ano passado, o equivalente a 21,3% da produção total da Vale no período.

FONTE:  Folha de São Paulo 

Deputado ganha disputa por autoria da CPI para investigar tragédia de Brumadinho

Pedido do deputado Sargento Rodrigues (PTB) para instalação de uma CPI da mineração depende agora do aval do presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, deputado Agostinho Patrus (PV)

Deputados Sargento Rodrigues e Beatriz Cerqueira
(foto: Alexandre Guzanshe e Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

 

Na disputa pela publicidade da autoria do pedido para a instalação de uma  Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o setor de mineração, no rastro das tragédias de Mariana e Brumadinho, o deputado Sargento Rodrigues (PTB) ganhou nesta segunda-feira (4) da deputada Beatriz Cerqueira (PT).

A assessoria do deputado conseguiu protocolar, na manhã de hoje, o requerimento em  nome do parlamentar que, conforme o Regimento Interno (RI) da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), assegura a ele uma vaga de membro efetivo na comissão.

Sargento Rodrigues, no entanto, segundo o RI, não poderá ocupar a vaga de presidente da CPI nem a de relator da futura apuração sobre as causas e os implicados nos dois desastres ambientais, que deixaram mortos e desaparecidos em meio à lama de rejeitos das barragens rompidas.

Fila

Durante todo o dia desse domingo (3) e madrugada desta segunda-feira (4), assessores dos dois deputados se revezaram em uma das portarias de acesso à ALMG para garantir – na sessão de protocolo da Casa, que abriu às 8 horas de hoje-,  o registro do pedido em nome de seus respectivos chefes.

A assessoria da deputada também anexou o requerimento. Neste caso, ele será, como de praxe, anexado à solicitação primeira do deputado Sargento Rodrigues.

A Assessoria de imprensa da ALMG informou, na manhã desta segunda-feira, que o deputado Doutor Wilson Batista (PSD) também protocolou pedido semelhante.

Tramitação

Caberá ao presidente da  Assembleia, deputado Agostinho Patrus (PV), conforme determina o Regimento Interno da Casa, acolher ou não o pedido. Se houve acolhimento, a CPI contará  com  sete membros efetivos e a mesma quantidade  de suplentes.

A indicação dos participantes da CPI ficará  sob a responsabilidade dos líderes  de  bancadas e blocos da Casa, exceto a vaga já  assegurada pelo deputado Sargento Rodrigues. Os cargos dos parlamentares na CPI serão escolhidos por meio de eleição  realizada pelos membros efetivos.

 

FONTE: Estado de Minas 

Tragédia em Brumadinho: medo de rompimento de barragem tira sono em outra cidade mineira

Congonhas com a barragem da CSN ao fundo; ‘acordo assustada e tenho pesadelos’ com a possibilidade de rompimento, diz moradora

 

Depois da tragédia em Brumadinho, moradores de Congonhas, em Minas Gerais, passaram a semana apreensivos, com um olho no noticiário e o outro na barragem que paira sobre sua cidade, cinco vezes maior que a que rompeu.

Desde 2013 a cidade luta contra a barragem Casa de Pedra, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A resistência havia se acirrado depois do desastre de Mariana, em 2015 – e deu margem a pânico na última semana, enquanto moradores acompanhavam as centenas de mortes e desaparecimentos em Brumadinho.

“Eu fiquei traumatizada. Eu acordo assustada. Tive pesadelo com a minha menina, nem a deixo sair de perto de mim”, diz Adilene Resende, com uma de suas duas filhas no colo, ao lado de um grupo de vizinhos. “A gente mora bem debaixo da barragem. Estou morrendo de medo, não só por mim, mas por todos aqui.”

Adilene mora no Residencial Gualter Monteiro, bairro popular mais próximo à barragem – as casas mais próximas ficam a apenas 250 metros de suas paredes. Em Brumadinho, o refeitório e a área administrativa da Vale, que foram engolidos pela lama, ficavam a dois quilômetros da barragem que rompeu.

A Casa de Pedra é uma das maiores barragens construídas em área urbana na América Latina, com capacidade para 50 milhões m3 de resíduos de mineração – quase cinco vezes o volume que irrompeu em Brumadinho.

Segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) de Minas Gerais, a estrutura é classificada como Classe 6, a mais alta em categoria de risco e de dano potencial associados.

Em entrevista à BBC News Brasil em Congonhas, o prefeito José de Freitas Cordeiro afirmou que se reuniu nesta semana com diretores da CSN – e que a companhia se comprometeu a iniciar o processo de desativação da barragem até o fim deste ano, mudando o processo de produção do minério de ferro para focar no rejeito a seco, que não precisa de barragem.

Vista de Congonhas ao lado da barragem
Vista de Congonhas ao lado da barragem; casas mais próximas estão a apenas 250 metros das paredes da barragem

O anúncio, segundo Cordeiro, é uma boa notícia, mas por enquanto é “acordo de boca”. Contatada pela BBC News Brasil, a empresa não quis se pronunciar.

O prefeito está no cargo há seis anos e vinha negando um pedido da CSN de altear a barragem, que tem 76 metros de altura, em mais 11 metros.

“É uma represa que dá medo. É um monstro que está em cima de Congonhas”, diz o prefeito, conhecido como Zelinho.

Infiltração e ‘risco de rompimento’

A Casa de Pedra está em operação há 15 anos e foi construída a jusante, enquanto as barragens que estouraram em Brumadinho e em Mariana foram construídas a montante -técnica que não está mais sendo permitida em Minas Gerais, ressalta Cordeiro.

“A empresa diz que a construção é moderna e que não existe risco. Mas a barragem de Brumadinho também não tinha risco, de acordo com o laudo de setembro (que atestava a sua estabilidade da estrutura da Vale). Então acho que não existe risco zero em represa nenhuma”, considera o prefeito da cidade.

O Ministério Público de Minas Gerais já constatou problemas na estrutura da Casa de Pedra duas vezes, em 2013 e 2017. Um parecer do órgão em outubro de 2017 apontou risco de rompimento e determinou uma série de medidas corretivas.

Segundo o promotor Vinícius Alcântara Galvão, a CSN cumpriu as exigências na época, e perícias posteriores confirmaram a estabilidade da barragem.

Porém, ele destaca que laudos de estabilidade têm curta duração, já que barragens são estruturas dinâmicas, e a fiscalização deve ser constante.

“A população de Congonhas vive apreensiva”, diz Galvão. “Tivemos oportunidade de fazer duas atuações preventivas. Debelamos dois focos de incêndio. Se não tivessem sido debelados da forma como foram, na hora certa, poderiam ter se convertido em dano efetivo, em mortes, desastre. Se essa estrutura viesse a romper, seria um seria um dos maiores acidentes da humanidade”, alerta Galvão.

Adilene com as filhas
Adilene e as filhas moram em um dos bairros mais próximos à barragem

Ele estima que 5 mil pessoas poderiam ser afetadas se a barragem rompesse. “A cidade não pode conviver com esses riscos e com essa apreensão.”

Um dia antes de o acidente em Brumadinho, Galvão solicitou uma nova perícia na barragem – e aguarda o laudo com o seu resultado.

Patrimônio mundial

Congonhas é uma das cidades históricas de Minas Gerais, famosa pelo Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, cercado por esculturas do Aleijadinho e reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

Do mirante da igreja, construída no século 18, vê-se a barragem, que pode ser avistada da maior parte da cidade de 54 mil habitantes.

A semana após o acidente em Brumadinho foi de intensa mobilização no município. Na terça-feira, cerca de 3 mil pessoas se reuniram na associação de moradores do Residencial Gualter Monteiro, em um encontro com discursos inflamados que acabou enchendo toda a rua.

Na quarta, um grupo e lideranças comunitárias foram à sede da CSN entregar uma carta enumerando seus pleitos – entre eles, o reassentamento imediato de moradores das áreas mais próximas à barragem em face da incerteza -, mas não foram recebidos.

“A empresa não tem a menor abertura para diálogo com a comunidade e nem com a imprensa”, diz Sandoval de Souza Pinto Filho, diretor de Meio Ambiente e Saúde da União das Associações Comunitárias de Congonhas (Unaccom).

Vista da barragem
Image captionPromotor afirma que 5 mil pessoas podem ser afetadas caso barragem se rompa

Aposentado após 30 anos de atuação como técnico em usinas de beneficiamento de minério, Pinto Filho vem fazendo alertas contra a barragem há uma década, mas era taxado de alarmista. “O pessoal está acordando. É bom que seja antes de a barragem romper”, afirma.

Ele entrou com representação no Ministério Público em 2013 e em 2017, depois de ser procurado por moradores afirmando que a barragem estava minando água, ou seja, tinha pontos de infiltração. As representações deram origem aos dois inquéritos civis do MP-MG contra a CSN – e aos reparos feitos pela empresa em resposta. Motivaram também uma interdição da mina pelo Ministério do Trabalho, em 2017.

“A barragem demanda muito cuidado por sua posição geográfica e proximidade do centro. Se em Córrego do Feijão tivemos centenas de vítimas, aqui começaríamos a contar pelo milhar”, afirma Pinto Filho.

Ele considera que o acordo de boca anunciado pelo prefeito só terá valor quando for apresentado oficialmente pela empresa, com um cronograma detalhado e uma estratégia esmiuçada.

“Precisamos de uma solução segura e confiável, que seja comunicada com clareza à população, para que ninguém continue morando com dúvidas. Porque, diante da dúvida, estamos vendo pessoas vendendo suas casas, mas ninguém quer comprar”, diz Pinto Filho.

Promotor Vinicius Alcântara Galvão
Promotor Vinicius Alcântara Galvão destaca que laudos de estabilidade têm curta duração, já que barragens são estruturas dinâmicas, e a fiscalização deve ser constante

A mina e o bairro

A Casa de Pedra começou a ser explorada em 1913, muito antes da fundação da CSN, em 1941, pelo governo Getúlio Vargas, e incorporou a mina cinco anos depois. A mineradora, hoje a segunda maior siderúrgica do país, foi privatizada em 1993.

Quando o conjunto popular foi construído, nos anos 1980, a barragem de mineração não existia. Os moradores lembram apenas da represa de água que pertencia à mina, bem mais afastada do local.

“Tinha uma lagoa lá onde pessoas iam passar o fim de semana com a família, era muito verde, muito bacana. Mas com o passar do tempo, foi trocada pela barragem, que foi se expandindo. E a população ficou espremida aqui”, diz Wagner Hermano Silva Firmino, que trabalha na CSN e é um dos moradores da área logo abaixo da barragem. Sua casa fica próxima à sirene instalada como parte do plano de evacuação.

“Os moradores chegaram primeiro. Mas o poder falou mais alto que a população”, considera Firmino.

O plano de emergência foi elaborado depois da ruptura da barragem da Samarco em Mariana, em novembro de 2015, que matou 19 pessoas e se tornou o maior desastre ambiental do Brasil.

Hoje há placas espalhadas pelo bairro indicando a rota de fuga. Firmino diz que não houve lá muita adesão da população nas duas simulações convocadas pela empresa para ensinar os moradores o que deveriam fazer em caso de uma ruptura.

“A população não acreditou muito, não. Não foi muita gente. Primeiro tivemos Mariana, e agora Brumadinho… O pessoal perdeu a confiança totalmente. Porque a sirene nem soou.”

Uma das rotas de evacuação da região da barragem
Uma das rotas de evacuação da região da barragem; não houve muita adesão da população nas simulações convocadas pela empresa para ensinar os moradores o que deveriam fazer em caso de uma ruptura

Firmino se pergunta o que faria com a sua mãe, que teve três AVCs e tem dificuldade para andar, e mora próximo à fronteira do bairro com a barragem, se a sirene soasse. “E se eu estiver no trabalho?”, questiona. “E os idosos, as crianças na creche, as pessoas que têm problemas de saúde, como fariam?”

Rita Resende faz a mesma pergunta. Ela mora ao lado de Adilene, sua irmã, nas casas do Residencial Gualter Monteiro mais próximas à parede da barragem. Entre as duas famílias, são nove crianças.

“Como é que eu vou correr com meus sete meninos se a barragem estourar?”, pergunta Rita. “Eu não quero que nenhum dos meus meninos morra. A comunidade inteira está assustada. Estamos pedindo para os órgãos competentes tomarem alguma providência”, diz, nervosa, com os filhos aglomerados na barra da saia enquanto dá de mamar para a recém-nascida da família.

“Irresponsabilidade”

Para o prefeito José de Freitas Cordeiro, a barragem jamais poderia ter sido construída naquele local.

“Está em cima de um bairro que já havia sido instalado. É uma irresponsabilidade muito grande dos órgãos ambientais terem aprovado essa represa. Só mesmo em países subdesenvolvidos que isso pode acontecer”, critica o prefeito, que tomou posse em 2012, quando a última expansão da barragem foi concluída.

Zelinho, prefeito de Congonhas
Zelinho, prefeito de Congonhas, diz que barragem não deveria ter sido construída

Desde 2014, a CSN tenta obter uma licença ambiental para aumentar o tamanho da barragem mais uma vez. O alteamento seria de 11 metros, passando dos atuais 76 metros de altura para 77, de acordo com a prefeitura.

O processo está em análise junto à Secretaria de Estado de Meio Ambiente mas gerou indignação entre a população local. O prefeito assumiu o compromisso de se manter contra a medida. Se o descomissionamento da barragem da CSN for confirmado, a briga em torno do alteamento deve ser deixada para trás.

Para a população, entretanto, diante da devastação causada pelo colapso da barragem em Brumadinho, não se pode esperar que a decisão fique para depois.

“Precisamos de uma solução de imediato”, diz Maria Augusta Fernandes Emediato Pereira, de 49 anos. “Depois de Mariana, as autoridades tomaram algumas atitudes, mas não foi o suficiente. Brumadinho reacende a preocupação. Mas o problema é que depois cai no esquecimento. Isso não pode acontecer novamente.”

Maria Augusta com as filhas
Maria Augusta mora com as filhas; a caçula não quer voltar para casa, com medo de a estrutura se romper

Viúva, ela mora em Cristo Rei, o segundo bairro mais próximo à barragem, com as duas filhas, Ana Júlia, de 18 anos, e Maria Gabriela, de 8 anos. Elas estavam de férias em Porto Seguro quando a barragem de Brumadinho rompeu. A caçula não queria voltar para casa de jeito nenhum. “Tenho medo”, diz sobre a estrutura.

Até as duas tragédias, a família não atinava para o que estava por trás daquelas paredes de terra, cobertas por uma gramínea verde, que avistam da varanda. “Só depois da tragédia a gente se deu conta do estava do lado da nossa casa”, assusta-se a jovem Ana Júlia.

Maria Augusta já pensou em se mudar com as filhas, mas diz que essa não seria uma solução. Afinal, o bairro continuará ali. Ela gostaria que a barragem fosse esvaziada e reintegrada à natureza. “As vidas têm que valer mais”, diz.

 

FONTE: BBC

Vereador de Brumadinho questionou Vale sobre segurança um mês antes da tragédia

FONTE: G1

ENTREVISTA-Tudo indica que barragem se rompeu por liquefação, diz autoridade de MG

BELO HORIZONTE (Reuters) – O rompimento da barragem da Vale na última sexta-feira pode ter sido causado por liquefação, o que já ocorreu em outros grandes desastres no mundo em estruturas com o mesmo método de construção de Brumadinho (MG), com tecnologia de alteamento a montante, afirmou à Reuters o subsecretário de Regularização Ambiental, da secretaria do meio ambiente do Estado, Hidelbrando Neto.

Barragem da Vale em Brumadinho que se rompeu na semana passada 01/02.2019 REUTERS/Adriano Machado

 

No entanto, seria preciso entender por que a liquefação teria acontecido, afirmou o subsecretário, uma vez que dados entregues pela Vale mostram que equipamentos chamados piezômetros não detectaram movimentação de água interna na estrutura.

Neto lembrou que a liquefação, com o maior acúmulo de água na estrutura, foi o motivo apontado para o rompimento de barragem da Samarco (joint venture da Vale com BHP Billiton) em novembro de 2015, que utilizava o mesmo método de alteamento.

A conclusão no caso Samarco foi publicada por autoridades e endossada mais tarde por investigação contratada pelas próprias mineradoras, que apontou causas técnicas para a liquefação, mas não informou culpados.

“Os dois desastres que ocorreram foram com barragens a montante e, nos dois casos, pelo menos tudo indica, que é a informação que a gente está recebendo aqui, é que foi por liquefação”, afirmou Neto, pontuando que a liquefação é problema mais comum em barragens alteadas pelo método a montante, pelo fato dos alteamentos serem feitos em cima do rejeito drenado.

“Então eu acredito que a União vai caminhar para o caminho de parar, proibir, essas barragens a montante, que é o que o Estado fez”, acrescentou ele, comentando que o governo de Minas Gerais interrompeu qualquer licenciamento envolvendo qualquer tipo de barragem até que o país reveja sua regulação, além de ter proibido a aplicação de tecnologia a montante, em decreto de 2016.

A Vale disse que “as causas do rompimento estão sendo investigadas e serão comunicadas com transparência e a maior agilidade possível”.

A autoridade destacou ainda que alguns fatores que, por vezes, podem precipitar problemas em barragens não foram verificados.

“Não teve tremor, não teve chuva, que são gatilhos que normalmente tem. Então a pergunta que todo mundo faz é: o que aconteceu? O que causou? E para descobrir isso tem que ter os estudos”, afirmou Neto.

O rompimento da barragem da Vale na sexta-feira deixou pelo menos 110 mortos, dos quais 71 identificados, e mais de 200 desaparecidos.

O sistema a montante custa cerca de metade de outras barragens, mas apresenta maior risco de segurança, porque suas paredes são construídas sobre uma base de resíduos, em vez de em material externo ou em terra firme.

Uma alternativa é o método a jusante, quando as paredes vão sendo construídas em terra firme, além de outras tecnologias, como a disposição do rejeito de maneira seca, em cavas ou em pilhas.

Com cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, a estrutura que atendia a mina Córrego do Feijão liberou uma montanha de lama que engoliu área administrativa da companhia e refeitório, na hora do almoço, com centenas de empregados da empresa. Atingiu ainda comunidades, pousada, matas e rios da região.

Atualmente, há 50 barragens a montante em Minas Gerais, sendo 27 em operação e 23 paralisadas, incluindo a de Brumadinho.

REVISÃO DE PARÂMETRO

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais é a responsável por licenciar as barragens no Estado.

Mas Neto frisou que a competência para fiscalizar as barragens é federal e que, pelas declarações públicas já apresentadas pelo governo e pela Agência Nacional de Mineração (ANM), deverá haver uma mudança na legislação.

As mudanças, segundo ele, deveriam ocorrer principalmente em questões relacionadas aos parâmetros técnicos que indicam que a barragem está estável.

“Porque quando a gente pega os dois desastres, e que nos dois casos tinha laudos garantindo a estabilidade, então tem algum parâmetro técnico que tem que ser revisto”, disse Neto.

“A ANM já soltou um comunicado dizendo que vão reforçar a fiscalização e que vão começar pela de barragens a montante que estão sem garantia de estabilidade”, afirmou.

Neto ponderou que, apesar de a competência de fiscalização da segurança das barragens ser federal, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado já havia tomado medidas para trazer maior rigor, como a proibição de que houvesse novos processos de licenciamentos de alteamento com a tecnologia a montante desde 2016.

Além disso, também participou de resolução estadual que trouxe auditorias técnicas extraordinárias de segurança para os barramentos alteados a montante, dentre outras medidas.

Dessa forma, Neto acredita que a regulação no entorno desse tipo de barragem ficou mais rigorosa após o desastre da Samarco, mas os parâmetros técnicos de avaliação não foram alterados.

“O que aconteceu mais recentemente foi uma mudança de gestão mesmo, a análise técnica continua a mesma, tudo igual… O órgão ficou mais eficiente, mas seguindo as mesmas normas e parâmetros técnicos”, frisou.

“Tem que rever esses parâmetros de segurança, rever essas normas federais. Para garantir que isso não ocorra mais. O Estado de Minas já está mandando tirar todas, mas tem barragem a montante no Brasil inteiro. Então tem que ser uma mudança federal.”

A Vale informou recentemente que tem dez barragens de mineração com método de alteamento a montante, todas elas fora de operação, e anunciou investimentos de 5 bilhões de reais para acelerar o descomissionamento dessas estruturas.

Nesta semana a empresa disse que em 2016, logo após o evento da Samarco, determinou o descomissionamento das 19 barragens a montante existentes à época para minério de ferro no Brasil.

Ao longo dos últimos anos, todas tornaram-se inativas e mantiveram os seus laudos de estabilidade emitidos por empresas especializadas e independentes, segundo a Vale.

Para acelerar o processo de descomissionamento de barragens, a companhia disse que terá de parar a produção de minério de ferro nas áreas próximas das unidades situadas em Minas Gerais, com impacto de 40 milhões de toneladas de minério de ferro, que será parcialmente compensado pelo aumento de produção em outros sistemas produtivos da companhia.

NOTA ÁREA DE VEGETAÇÃO IMPACTADA PELOS REJEITOS – SEMAD

IEF MAPEIA ÁREA DE VEGETAÇÃO IMPACTADA PELOS REJEITOS

 

Layout 1 - Zona de Amortecimento

 

O Instituto Estadual de Florestas (IEF) divulga os dados da avaliação preliminar dos impactos dos rejeitos provenientes do rompimento da Barragem B1, da Mina Córrego do Feijão, sobre a área de vegetação do local.

As análises foram feitas por meio de interpretação de imagens de satélite dos dias 18 de janeiro, data anterior ao rompimento, e 27 de janeiro, data posterior ao desastre.

A área total ocupada pelos rejeitos, que parte da Barragem B1 até o encontro com o Rio Paraopeba, foi de 290,14 hectares. Deste total, a área da vegetação impactada representa 147,38 hectares.

O Instituto Estadual de Florestas divulga também a avaliação dos impactos dos rejeitos dentro de unidades de conservação.

Na APA SUL, foram impactados 10,68 hectares. Essa parcela representa essencialmente parte da própria área da Barragem B1. Além disso, os rejeitos afetaram parte da zona de amortecimento do Parque Estadual da Serra do Rola Moça, totalizando 225,20 hectares.

O levantamento será usado para avaliar a extensão dos danos sobre a flora nativa e determinação de medidas compensatórias e reparadoras.

O IEF permanece acompanhando os danos ao meio ambiente provenientes do rompimento da Barragem B1 e avaliará possíveis outras áreas de vegetação e unidades de conservação que, por ventura, venham a ser impactadas.

 

Layout 2 - APA Sul

 

 

Vegetacao Impactada 1

 

Vegetacao Impactada 2

 

 

Secretário de Meio Ambiente de Minas Gerais dá entrevistas para Bom dia Minas e Rádio Itatiaia

O secretário de Meio Ambiente de Minas Gerais Germano Vieira esclareceu algumas dúvidas sobre os processos de licenciamento no Estado, em entrevistas para o programa Bom Dia Minas e para o jornal da Rádio Itatiaia. Confira as matérias abaixo.

 

Entrevista do Bom dia Minas

Divulgação / Globo Minas

Entrevista da Rádio Itatiaia.

‘Foram tirados do mapa’, afirma ambientalista sobre córregos de Brumadinho

Córrego do Feijão foi destruído pela lama da barragem

 

Integrantes dos comitês de bacias hidrográficas do Rio das Velhas e São Francisco demonstraram preocupação com o desaparecimento dos córregos do Feijão e Ferro do Carvão, durante coletiva realizada na manhã desta quarta-feira (30), em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Foram totalmente destruídos, tirados do mapa. E ainda houve enorme comprometimento do Paraopeba, porque (o rejeito) ficou depositado no leito do rio”, afirmou Marcus Vinicius Polignano, integrante do Manuelzão.

Segundo ele, os rejeitos estão chegando a Pará de Minas, na região Central do Estado. Na terça-feira (29), a Vale informou que iria colocar uma cortina de contenção no local, para impedir que o conteúdo afete a captação de água da cidade. Até o momento, o barramento, no entanto, isso não foi feito.

A previsão do professor da UFMG é de que os rejeitos parem na Usina de Retiro de Baixo, em Felixlândia, e não cheguem à Usina de Três Marias e no rio São Francisco. “De toda forma é muito grave, compromete a qualidade da água e a captação, além do efeito sobre ecossistema”, disse.

Tragédia repetida

Segundo ele, é preciso ter atitudes e respostas claras sobre o que acontecerá com as outras barragens para que novos desastres não voltem a se repetir. “Há três anos ouvimos quase as mesas declarações. Estamos enterrando rios e pessoas. É inadmissível que continue essa política pública”, protestou Marcus Vinicius Polignano.

Para Anivaldo Miranda, do CBH Rio São Francisco, apenas os monitoramentos da água realizados pela Copasa e Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) não são suficientes. “É preciso trabalhar em prol da comunidade ribeirinha, recuperar o Paraopeba e toda sua bacia”, disse.

Tribo Pataxó

Na terça-feira (29), o cacique de uma tribo residente na região de Brumadinho pediu ajuda médica para os moradores. Segundo Hãyó, o cheiro da água está adoecendo os índios, que também estão sem alimento.

A tribo é composta por 27 famílias, com número entre 80 e 100 integrantes.

 

FONTE: Hoje em Dia 

Água do Rio Paraopeba tem riscos à saúde humana e animal, confirma governo

Conclusão veio por meio de resultado de monitoramento. Água bruta não deve ser usada para qualquer fim e quem apresentar problemas de saúde deve procurar atendimento médico

(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

 

A água do Rio Paraopeba, atingido pela lama do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, oferece riscos à saúde humana e animal. A conclusão vem dos resultados iniciais do monitoramento feito pelo governo de Minas Gerais e foi divulgada, por meio de nota, na madrugada desta quinta-feira.
A orientação é das secretarias de Estado de Saúde, Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável (Semad), e Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os órgãos não indicam o uso da água bruta do Paraopeba para qualquer finalidade até que a situação seja normalidade. Pessoas e animais devem se manter a uma distância de 100 metros das margens. “O contato eventual não causa risco de morte. E para os bombeiros, que têm trabalhado em contato mais direto com o solo, a orientação da Saúde é para que utilizem todos os equipamentos de segurança”, informa o governo.

 

O estado já determinou que a Vale forneça água potável aos moradores das comunidades afetadas. Também foi suspensa a necessidade de outorga para a perfuração de poços artesianos. Uma equipe da Secretaria de Agropecuária já está percorrendo 20 municípios da região para orientar as pessoas a não utilizarem a água desses cursos.
A determinação é válida para áreas que vão da confluência do Rio Paraopeba com o Córrego Ferro-Carvão até Pará de Minas, no Centro-Oeste do estado. Neste último município, há outro que serve de alternativa para o abastecimento da cidade.
Quem apresentar algum problema de saúde deve procurar ajuda médica. “Qualquer pessoa que tenha tido contato com a água bruta do Rio Paraopeba – após a chegada da pluma de rejeitos – ou ingerido alimentos que também tiveram esse contato, e apresentar náuseas, vômitos, coceira, diarreia, tonteira, ou outros sintomas, deve procurar a unidade de saúde mais próxima e informar sobre esse contato”, orienta o governo de Minas Gerais.
O governo disponibilizou os dados de monitoramento da qualidade da água superficial neste link.