sexta-feira , abril 10 2020
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Indenização a famílias de Brumadinho vai levar tempo; mesmo ocorreu em Mariana

Lucas Prates / Hoje em Dia

 

Se os três anos que separam as tragédias de Mariana e Brumadinho foram insuficientes para evitar um novo desastre, o período também não trouxe garantias às famílias atingidas pelo rompimento das barragens. Em 2015, diversas ações judiciais foram necessárias para oferecer aos sobreviventes condições de recomeçar a vida. Agora, a população afetada em Córrego do Feijão e Parque da Cachoeira – vilarejos que praticamente sumiram do mapa – pode passar pelas mesmas dificuldades.

Do ponto de vista ambiental, também há risco de impunidade. A Samarco, empresa controlada pela Vale e BHP Billiton e responsável pela estrutura em Mariana, pagou menos de 6% (R$ 45 milhões) das multas aplicadas por conta do rompimento de Fundão. Em relação a Brumadinho, o montante já soma R$ 500 milhões.

Sobre indenizações, especialistas acreditam que os casos referentes a Brumadinho vão levar tempo nos tribunais. Promotor de Justiça em Mariana, Guilherme de Sá Meneghin explica que, de Fundão, as empresas responsáveis – Samarco, Vale e BHP Billiton – “fizeram de tudo para não conceder os direitos às vítimas”, e benefícios como auxílio financeiro e aluguel de imóveis “só foram pagos mediante ações judiciais”.

“Há um discurso de que Brumadinho morreu, mas não é verdade. Essa postura reforça o retorno da mineração sem que ninguém tenha pago pelos crimes, uma tensão que existe hoje em Mariana” – Armindo dos Santos de Sousa, professor

Meneghin destaca ser essencial a “mudança de mentalidade” das mineradoras para evitar demora na conclusão dos processos. Além disso, diz que a falta de legislação específica sobre desastres dificulta os trâmites e pode prejudicar os atingidos em Brumadinho. “Como essa assistência às famílias não está prevista em lei, o juiz fica diante de uma lacuna legal. Nesses três anos, infelizmente, isso não foi consolidado”, lamenta o promotor.

Luto compartilhado
Quem assistiu à própria casa sendo engolida pelo mar de lama em Mariana afirma que, em Brumadinho, o sofrimento tende a ser ainda pior, já que o número de vítimas é mais expressivo. José do Nascimento de Jesus, líder comunitário de Bento Rodrigues, comunidade destruída pelos rejeitos, garante que o diálogo com as mineradoras é extremamente difícil. “Não tem outro jeito. Essas empresas precisam fechar as portas. Afinal, o que é pior: ficar desempregado ou perder a vida?” questiona.

Coordenador do Núcleo de Pesquisas em Ética e Gestão Social da PUC Minas, o professor Armindo dos Santos de Sousa Teodósio afirma haver riscos claros de que os problemas em Mariana também aconteçam em Brumadinho.

Ele explica que as dificuldades já são percebidas no cadastro dos moradores, o que gera divisão e conflitos de interesses. “Os não afetados passam a defender o retorno da atividade mineradora, enquanto os diretamente atingidos começam a ser estigmatizados e até a sofrer bullying”. Para o especialista, toda a cidade foi impactada pela tragédia e, agora, é preciso aprender a viver sem a mineração como principal fonte de recursos.

Além disso

Conforme a Vale, desde quinta-feira foi iniciado o cadastro das famílias de mortos e desaparecidos para receber R$ 100 mil. Quem tinha casa ou comércio na área atingida também terá direito a valores que vão de R$ 15 mil a R$ 50 mil. Os detalhes serão divulgados nesta semana. “Importante destacar que esse apoio financeiro humanitário é uma doação, sendo uma forma de minimizar possíveis incertezas dos atingidos. Não se trata de indenização, que será acordada entre as partes em conjunto com as autoridades”.

Apesar das indenizações não terem sido definidas pela Justiça, a Defensoria Pública do Estado garante que as vítimas de Brumadinho deverão ser ressarcidas. O defensor público Rômulo Luís Veloso de Carvalho, que atua junto aos atingidos, afirma que o episódio de Mariana trouxe aprimoramentos. “Vamos buscar referências de compensação para que todos sejam indenizados de forma justa e esperamos que as pessoas não demorem para receber”, diz.

Procurada, a Samarco informou que o assunto é tratado pela Fundação Renova. Em nota, a entidade diz ter pago R$ 1,3 bilhão em indenizações e auxílios financeiros às vítimas de Fundão e que assiste mais de 25 mil pessoas impactadas diretamente na atividade econômica em função do rompimento da barragem. Essas famílias, segundo a Renova, recebem mensalmente um salário mínimo, acrescido de 20% por dependente, além do montante equivalente a uma cesta básica. Das 19 famílias que perderam um parente, 16 foram indenizadas integralmente e uma, parcialmente. O restante está na esfera judicial.

 

FONTE: Hoje em Dia 

Justiça mantém prisão de funcionários da Vale

Um geólogo e dois gerentes da mineradora estão presos há uma semana

Lama atingiu o Rio Paraopeba (foto: Túlio Santos/EM/D.APress)

 

A segunda instância da Justiça de Minas Gerais decidiu manter a prisão de três funcionários da mineradora Vale, presos na semana passada no âmbito das investigações do rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG). A decisão foi proferida pelo desembargador Marcílio Eustáquio Santos, na sexta-feira (1º).
No despacho, o magistrado entendeu que não há ilegalidades nos fundamentos apresentados pela primeira instância, que decretou a prisão do geólogo Cesar Augusto Grandchamp; do gerente de Meio Ambiente, Ricardo de Oliveira, e do gerente do Complexo de Paraopeba da empresa, Rodrigo Artur Gomes de Melo.
De acordo com o Ministério Público, os três funcionários estão diretamente envolvidos no processo de licenciamento ambiental da barragem. Dois engenheiros terceirizados que atestaram a estabilidade da barragem também estão presos.

Após o cumprimento dos mandados de prisão pela Polícia Federal (PF), a Vale divulgou nota à imprensa na qual informou que está à disposição das autoridades. “A Vale permanecerá contribuindo com as investigações para a apuração dos fatos, juntamente com o apoio incondicional às famílias atingidas.”

Na manhã de hoje (3), os bombeiros iniciaram o décimo dia de buscas por vítimas do rompimento da barragem. De acordo com balanço mais recente divulgado pela Defesa Civil de Minas Gerais, 395 pessoas foram localizadas pelas equipes de buscas, 226 continuam desaparecidas e 121 morreram.

Minas tem cinco barragens que acumulam duas classificações de perigo

Copasa foi encarregada de conduzir licitação para desmobilizar reservatórios denunciados pelo EM em Rio Acima e a Semad fiscalizará, este mês, estrutura localizada no Norte de Minas

 

Ministério Público de Minas pediu fiscalização de todas as barragens de Itabirito, incluindo a de Água Fria, em Rodrigo Silva, distrito de Ouro Preto, que tem projeto de desativação
(foto: Arquivo Pessoal )

 

Com dupla classificação de alto risco – na possibilidade de acidentes e na extensão do dano potencial em caso de rompimento –, quatro barragens de rejeitos de mineração e uma de água em Minas Gerais só agora despertam a atenção do poder público, depois da repercussão da tragédia provocada pela Vale em Brumadinho. Largadas ao abandono ou esquecidas há anos, embora estejam próximas de áreas habitadas, elas recebem as primeiras promessas de desativação, com retirada de material e reabilitação.


Em Rio Acima, distante cerca de 87 quilômetros do complexo destruído pela lama da barragem da mina Córrego do Feijão, dois maciços que pertenciam à mineradora Mundo Mineração serão descomissionados (esvaziamento e posterior reabilitação) e caberá à Copasa licitar a execução das obras, informou ao Estado de Minas a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad). O projeto foi finalmente aprovado para as estruturas, que, como denunciou o EM no começo do ano passado, acumularam contaminantes como cianeto, capaz de provocar parada cardiorrespiratória.

A outra barragem em Minas que a Agência Nacional de Águas destaca com duplo perigo é a Barragem de Perenização Bananal, usada para irrigação no Norte do estado, localizada no município de Salinas. Segundo a Semad, ela passará por fiscalização neste mês. Em relação a mais duas barragens, localizadas em Ouro Preto (Água Fria) e Itabirito (Dique 2), fonte ouvida pela reportagem informou que o projeto executivo para desativação da primeira estrutura está em fase de contratação. O Ministério Público requereu fiscalização imediata e soluções para todas as barragens em Itabirito.
Sob pressão, diante do devastador rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, e só depois de décadas de abandono surgem as primeiras promessas para livrar a população de Minas Gerais do perigo imposto por maciços considerados de alto risco e máximo dano potencial, segundo a Agência Nacional de Águas (Ana). Assumidas pelo Estado há cerca de seis anos, duas barragens de mineração deixadas com substâncias tóxicas em Rio Acima, distante apenas 87 quilômetros do complexo da Vale que a lama varreu, serão desmobilizadas, e o local reabilitado, de acordo com projeto, cujas obras serão licitadas pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa).

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) informou ao Estado de Minas que foi finalmente aprovado o projeto, em Rio Acima, para o descomissionamento (desativação) das duas estruturas que pertenciam à mineradora Mundo Mineração. O EM denunciou a condição desses reservatórios de rejeitos minerários e o estrago que eles podem provocar em série de reportagens publicadas em janeiro do ano passado.

As duas barragens constam com outras três como as mais perigosas de Minas em dupla avaliação – o risco alto na possibilidade de acidente e os graves danos às comunidades próximas e ao meio ambiente em caso de rompimento – no mais recente Relatório de Segurança de Barragens, da Ana, referente a 2017. A outra estrutura em Minas que a agência reguladora destaca é a Barragem de Perenização Bananal, usada para irrigação no Norte do Estado, localizada no município de Salinas. Segundo a Semad, a barragem passará por fiscalização neste mês.

O reservatório foi incluído na lista de maciços mais arriscados que o governo federal determinou, com o desastre provocado pela Vale em Brumadinho, que sejam fiscalizadas de imediato. Estão também classificadas no último degrau do relatório as barragens Água Fria, que acumulou rejeitos da exploração de topázio imperial no distrito de Rodrigo Silva, em Ouro Preto; e Dique 2, em Itabirito, ambos municípios históricos da Região Central de Minas.

PLANO DE EMERGÊNCIA Fonte envolvida nas negociações para desativação da barragem Água Fria ouvida pelo EM informou que o projeto executivo das obras está em fase de contratação. Em Itabirito, sem plano de emergência, a unidade Dique 2, da empresa Minar Mineração Aredes, está desativada e não contém mais água ou rejeitos em sua estrutura, como informou a Defesa Civil. Procurado pelo EM, o Ministério Púbico de Minas Gerais (MPMG) comunicou ter requerido à Fundação Estadual do Meio Ambiente e à Agência Nacional de Mineração (ANM) a fiscalização de todas as barragens localizadas em Itabirito, bem como pediu medidas necessárias ao fim das barragens.

O MPMG está processando a empresa de mineração responsável pela barragem Dique 2. Parte dessas estruturas pressionam a Estação Ecológica do Aredes. A reportagem tentou contato com a empresa, mas não teve retorno. O drama de Brumadinho agrava a situação em Minas de falta de respostas das autoridades para a condição arriscada das barragens. O EM teve acesso a estudos feitos pela Feam, em 2014, indicando que 42 estruturas estavam sem garantia de estabilidade. Pelo menos 24 delas, como mostrou a reportagem, se encontravam a dois quilômetros, em média, de áreas habitadas. Na Região Central do estado, o temor aumenta devido à grande presença da indústria da mineração.

O geólogo da Defesa Civil de Ouro Preto Charles Murta afirma que o município histórico está inserido num cenário mais dramático, uma vez que além de 16 barragens de Ouro Preto serem classificadas com alto dano potencial associado, o risco geológico da cidade também é grande. “O município, hoje, tem dois riscos: o geo-hidrológico e geotécnico, que é a facilidade de deslizamento em períodos de chuva, e o risco associado aos barramentos. Só no primeiro caso, temos 313 locais com riscos alto ou muito alto. Isso perfaz quase 6,5 mil pessoas em Ouro Preto”, explica.

SITUAÇÃO DRAMÁTICA Murta diz ainda que já foram feitas duas simulações de acidentes em barragens nas áreas de mineração das empresas Vale e Gerdau, e outras estão previstos para este ano. De acordo com o especialista, há um esforço da Defesa Civil, em conjunto com outras entidades públicas, como o MPMG, para que as empresas regularizem a situação das barragens na região.

Embora veja alguma evolução das cidades brasileiras no sentido de identificar os riscos geológicos e corrigir os problemas, o geólogo Edézio Teixeira de Carvalho, ex-professor da UFMG e da UFOP, diz que o país está muito atrasado nesse campo. “Olhando para Cachoeira do Campo (distrito de Ouro Preto onde são explorados calcário e fabricados artigos em pedra sabão) observamos os terrenos esburacados. O solo que saiu dali foi para rio abaixo e não é renovável”, critica.

Para o especialista, o Brasil peca, da mesma forma, por não transformar a geologia em matéria na escola, o que ocorre em outras nações com Portugal. “O sistema geológico adoece exatamente como ocorre com o homem. O médico de que a geologia precisa pode ser o próprio geólogo ou o engenheiro”, afirma. Na visão de Teixeira de Carvalho, a ciência e a técnica deveriam prevalecer e a legislação brasileira não respeita isso. (*) Estagiário sob a supervisão da subeditora Marta Vieira 

Perigo que ronda

» Barragem de perenização Bananal – Salinas

A estrutura sobre o Rio Bananal, que está próxima de centenas de propriedades rurais, foi incluída na lista preparada pelo governo federal contendo barragens que devem ser fiscalizadas de imediato devido ao seu alto risco

» Barragens Mina Engenho 1 e 2 – Rio Acima

Abandonadas desde 2012 pela mineradora Mundo Mineração, as barragens passaram à responsabilidade do governo estadual e contêm elementos tóxicos para homens e animais

» Água Fria – Ouro Preto

O reservatório, que não tem mais recebido rejeitos de mineração, serviu à extração de topázio imperial em Rodrigo Silva, distrito de Outro Preto

» Dique 2 – Itabirito

Estrutura usada na mineração de ferro, de propriedade da empresa Minar Mineração Aredes Ltda, que está sendo processada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG)


Inatividade perigosa

Construída há mais de 30 anos, a Barragem Água Fria não contém aditivos químicos e não recebe rejeitos há 10 anos, segundo fonte ouvida pela reportagem. Para o projeto de descomissionamento, ainda é necessária a aprovação de documentos pela empresa dona da barragem, a Topázio Imperial Mineração. Em nota, a mineradora admite que existem similaridades com a barragem de Córrego do Feijão, da Vale, mas pondera pontos que as diferenciam.

O primeiro aspecto seria o tempo o qual a barragem está desativada, o que faz com que a ela esteja “muito mais compactada do que a de Brumadinho” de acordo com a empresa. O segundo é o tipo de rejeito, que não demanda utilização de agentes químicos. O terceiro é que, apesar de as duas serem construídas com o método de alteamento a montante, a de Água Fria não foi produzida com o próprio rejeito. Por fim, a Topázio Imperial Mineração afirma que “não existe imediatamente a jusante da barragem nenhuma construção que pudesse ser atingida caso houvesse o rompimento da estrutura”.

Fiscalização O Ministério do Desenvolvimento Regional divulgou nota informando que serão feitas vistorias de 3.386 barragens que apresentam riscos no Brasil. Desses maciços, há 205 barramentos de mineração, cuja inspeção será prioritária até junho próximo. Desse universo, são cerca de 40 em Minas, de acordo com a Agência Nacional de Mineração (ANM).

Deputado ganha disputa por autoria da CPI para investigar tragédia de Brumadinho

Pedido do deputado Sargento Rodrigues (PTB) para instalação de uma CPI da mineração depende agora do aval do presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, deputado Agostinho Patrus (PV)

Deputados Sargento Rodrigues e Beatriz Cerqueira
(foto: Alexandre Guzanshe e Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

 

Na disputa pela publicidade da autoria do pedido para a instalação de uma  Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o setor de mineração, no rastro das tragédias de Mariana e Brumadinho, o deputado Sargento Rodrigues (PTB) ganhou nesta segunda-feira (4) da deputada Beatriz Cerqueira (PT).

A assessoria do deputado conseguiu protocolar, na manhã de hoje, o requerimento em  nome do parlamentar que, conforme o Regimento Interno (RI) da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), assegura a ele uma vaga de membro efetivo na comissão.

Sargento Rodrigues, no entanto, segundo o RI, não poderá ocupar a vaga de presidente da CPI nem a de relator da futura apuração sobre as causas e os implicados nos dois desastres ambientais, que deixaram mortos e desaparecidos em meio à lama de rejeitos das barragens rompidas.

Fila

Durante todo o dia desse domingo (3) e madrugada desta segunda-feira (4), assessores dos dois deputados se revezaram em uma das portarias de acesso à ALMG para garantir – na sessão de protocolo da Casa, que abriu às 8 horas de hoje-,  o registro do pedido em nome de seus respectivos chefes.

A assessoria da deputada também anexou o requerimento. Neste caso, ele será, como de praxe, anexado à solicitação primeira do deputado Sargento Rodrigues.

A Assessoria de imprensa da ALMG informou, na manhã desta segunda-feira, que o deputado Doutor Wilson Batista (PSD) também protocolou pedido semelhante.

Tramitação

Caberá ao presidente da  Assembleia, deputado Agostinho Patrus (PV), conforme determina o Regimento Interno da Casa, acolher ou não o pedido. Se houve acolhimento, a CPI contará  com  sete membros efetivos e a mesma quantidade  de suplentes.

A indicação dos participantes da CPI ficará  sob a responsabilidade dos líderes  de  bancadas e blocos da Casa, exceto a vaga já  assegurada pelo deputado Sargento Rodrigues. Os cargos dos parlamentares na CPI serão escolhidos por meio de eleição  realizada pelos membros efetivos.

 

FONTE: Estado de Minas 

Tragédia em Brumadinho: medo de rompimento de barragem tira sono em outra cidade mineira

Congonhas com a barragem da CSN ao fundo; ‘acordo assustada e tenho pesadelos’ com a possibilidade de rompimento, diz moradora

 

Depois da tragédia em Brumadinho, moradores de Congonhas, em Minas Gerais, passaram a semana apreensivos, com um olho no noticiário e o outro na barragem que paira sobre sua cidade, cinco vezes maior que a que rompeu.

Desde 2013 a cidade luta contra a barragem Casa de Pedra, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A resistência havia se acirrado depois do desastre de Mariana, em 2015 – e deu margem a pânico na última semana, enquanto moradores acompanhavam as centenas de mortes e desaparecimentos em Brumadinho.

“Eu fiquei traumatizada. Eu acordo assustada. Tive pesadelo com a minha menina, nem a deixo sair de perto de mim”, diz Adilene Resende, com uma de suas duas filhas no colo, ao lado de um grupo de vizinhos. “A gente mora bem debaixo da barragem. Estou morrendo de medo, não só por mim, mas por todos aqui.”

Adilene mora no Residencial Gualter Monteiro, bairro popular mais próximo à barragem – as casas mais próximas ficam a apenas 250 metros de suas paredes. Em Brumadinho, o refeitório e a área administrativa da Vale, que foram engolidos pela lama, ficavam a dois quilômetros da barragem que rompeu.

A Casa de Pedra é uma das maiores barragens construídas em área urbana na América Latina, com capacidade para 50 milhões m3 de resíduos de mineração – quase cinco vezes o volume que irrompeu em Brumadinho.

Segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) de Minas Gerais, a estrutura é classificada como Classe 6, a mais alta em categoria de risco e de dano potencial associados.

Em entrevista à BBC News Brasil em Congonhas, o prefeito José de Freitas Cordeiro afirmou que se reuniu nesta semana com diretores da CSN – e que a companhia se comprometeu a iniciar o processo de desativação da barragem até o fim deste ano, mudando o processo de produção do minério de ferro para focar no rejeito a seco, que não precisa de barragem.

Vista de Congonhas ao lado da barragem
Vista de Congonhas ao lado da barragem; casas mais próximas estão a apenas 250 metros das paredes da barragem

O anúncio, segundo Cordeiro, é uma boa notícia, mas por enquanto é “acordo de boca”. Contatada pela BBC News Brasil, a empresa não quis se pronunciar.

O prefeito está no cargo há seis anos e vinha negando um pedido da CSN de altear a barragem, que tem 76 metros de altura, em mais 11 metros.

“É uma represa que dá medo. É um monstro que está em cima de Congonhas”, diz o prefeito, conhecido como Zelinho.

Infiltração e ‘risco de rompimento’

A Casa de Pedra está em operação há 15 anos e foi construída a jusante, enquanto as barragens que estouraram em Brumadinho e em Mariana foram construídas a montante -técnica que não está mais sendo permitida em Minas Gerais, ressalta Cordeiro.

“A empresa diz que a construção é moderna e que não existe risco. Mas a barragem de Brumadinho também não tinha risco, de acordo com o laudo de setembro (que atestava a sua estabilidade da estrutura da Vale). Então acho que não existe risco zero em represa nenhuma”, considera o prefeito da cidade.

O Ministério Público de Minas Gerais já constatou problemas na estrutura da Casa de Pedra duas vezes, em 2013 e 2017. Um parecer do órgão em outubro de 2017 apontou risco de rompimento e determinou uma série de medidas corretivas.

Segundo o promotor Vinícius Alcântara Galvão, a CSN cumpriu as exigências na época, e perícias posteriores confirmaram a estabilidade da barragem.

Porém, ele destaca que laudos de estabilidade têm curta duração, já que barragens são estruturas dinâmicas, e a fiscalização deve ser constante.

“A população de Congonhas vive apreensiva”, diz Galvão. “Tivemos oportunidade de fazer duas atuações preventivas. Debelamos dois focos de incêndio. Se não tivessem sido debelados da forma como foram, na hora certa, poderiam ter se convertido em dano efetivo, em mortes, desastre. Se essa estrutura viesse a romper, seria um seria um dos maiores acidentes da humanidade”, alerta Galvão.

Adilene com as filhas
Adilene e as filhas moram em um dos bairros mais próximos à barragem

Ele estima que 5 mil pessoas poderiam ser afetadas se a barragem rompesse. “A cidade não pode conviver com esses riscos e com essa apreensão.”

Um dia antes de o acidente em Brumadinho, Galvão solicitou uma nova perícia na barragem – e aguarda o laudo com o seu resultado.

Patrimônio mundial

Congonhas é uma das cidades históricas de Minas Gerais, famosa pelo Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, cercado por esculturas do Aleijadinho e reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

Do mirante da igreja, construída no século 18, vê-se a barragem, que pode ser avistada da maior parte da cidade de 54 mil habitantes.

A semana após o acidente em Brumadinho foi de intensa mobilização no município. Na terça-feira, cerca de 3 mil pessoas se reuniram na associação de moradores do Residencial Gualter Monteiro, em um encontro com discursos inflamados que acabou enchendo toda a rua.

Na quarta, um grupo e lideranças comunitárias foram à sede da CSN entregar uma carta enumerando seus pleitos – entre eles, o reassentamento imediato de moradores das áreas mais próximas à barragem em face da incerteza -, mas não foram recebidos.

“A empresa não tem a menor abertura para diálogo com a comunidade e nem com a imprensa”, diz Sandoval de Souza Pinto Filho, diretor de Meio Ambiente e Saúde da União das Associações Comunitárias de Congonhas (Unaccom).

Vista da barragem
Image captionPromotor afirma que 5 mil pessoas podem ser afetadas caso barragem se rompa

Aposentado após 30 anos de atuação como técnico em usinas de beneficiamento de minério, Pinto Filho vem fazendo alertas contra a barragem há uma década, mas era taxado de alarmista. “O pessoal está acordando. É bom que seja antes de a barragem romper”, afirma.

Ele entrou com representação no Ministério Público em 2013 e em 2017, depois de ser procurado por moradores afirmando que a barragem estava minando água, ou seja, tinha pontos de infiltração. As representações deram origem aos dois inquéritos civis do MP-MG contra a CSN – e aos reparos feitos pela empresa em resposta. Motivaram também uma interdição da mina pelo Ministério do Trabalho, em 2017.

“A barragem demanda muito cuidado por sua posição geográfica e proximidade do centro. Se em Córrego do Feijão tivemos centenas de vítimas, aqui começaríamos a contar pelo milhar”, afirma Pinto Filho.

Ele considera que o acordo de boca anunciado pelo prefeito só terá valor quando for apresentado oficialmente pela empresa, com um cronograma detalhado e uma estratégia esmiuçada.

“Precisamos de uma solução segura e confiável, que seja comunicada com clareza à população, para que ninguém continue morando com dúvidas. Porque, diante da dúvida, estamos vendo pessoas vendendo suas casas, mas ninguém quer comprar”, diz Pinto Filho.

Promotor Vinicius Alcântara Galvão
Promotor Vinicius Alcântara Galvão destaca que laudos de estabilidade têm curta duração, já que barragens são estruturas dinâmicas, e a fiscalização deve ser constante

A mina e o bairro

A Casa de Pedra começou a ser explorada em 1913, muito antes da fundação da CSN, em 1941, pelo governo Getúlio Vargas, e incorporou a mina cinco anos depois. A mineradora, hoje a segunda maior siderúrgica do país, foi privatizada em 1993.

Quando o conjunto popular foi construído, nos anos 1980, a barragem de mineração não existia. Os moradores lembram apenas da represa de água que pertencia à mina, bem mais afastada do local.

“Tinha uma lagoa lá onde pessoas iam passar o fim de semana com a família, era muito verde, muito bacana. Mas com o passar do tempo, foi trocada pela barragem, que foi se expandindo. E a população ficou espremida aqui”, diz Wagner Hermano Silva Firmino, que trabalha na CSN e é um dos moradores da área logo abaixo da barragem. Sua casa fica próxima à sirene instalada como parte do plano de evacuação.

“Os moradores chegaram primeiro. Mas o poder falou mais alto que a população”, considera Firmino.

O plano de emergência foi elaborado depois da ruptura da barragem da Samarco em Mariana, em novembro de 2015, que matou 19 pessoas e se tornou o maior desastre ambiental do Brasil.

Hoje há placas espalhadas pelo bairro indicando a rota de fuga. Firmino diz que não houve lá muita adesão da população nas duas simulações convocadas pela empresa para ensinar os moradores o que deveriam fazer em caso de uma ruptura.

“A população não acreditou muito, não. Não foi muita gente. Primeiro tivemos Mariana, e agora Brumadinho… O pessoal perdeu a confiança totalmente. Porque a sirene nem soou.”

Uma das rotas de evacuação da região da barragem
Uma das rotas de evacuação da região da barragem; não houve muita adesão da população nas simulações convocadas pela empresa para ensinar os moradores o que deveriam fazer em caso de uma ruptura

Firmino se pergunta o que faria com a sua mãe, que teve três AVCs e tem dificuldade para andar, e mora próximo à fronteira do bairro com a barragem, se a sirene soasse. “E se eu estiver no trabalho?”, questiona. “E os idosos, as crianças na creche, as pessoas que têm problemas de saúde, como fariam?”

Rita Resende faz a mesma pergunta. Ela mora ao lado de Adilene, sua irmã, nas casas do Residencial Gualter Monteiro mais próximas à parede da barragem. Entre as duas famílias, são nove crianças.

“Como é que eu vou correr com meus sete meninos se a barragem estourar?”, pergunta Rita. “Eu não quero que nenhum dos meus meninos morra. A comunidade inteira está assustada. Estamos pedindo para os órgãos competentes tomarem alguma providência”, diz, nervosa, com os filhos aglomerados na barra da saia enquanto dá de mamar para a recém-nascida da família.

“Irresponsabilidade”

Para o prefeito José de Freitas Cordeiro, a barragem jamais poderia ter sido construída naquele local.

“Está em cima de um bairro que já havia sido instalado. É uma irresponsabilidade muito grande dos órgãos ambientais terem aprovado essa represa. Só mesmo em países subdesenvolvidos que isso pode acontecer”, critica o prefeito, que tomou posse em 2012, quando a última expansão da barragem foi concluída.

Zelinho, prefeito de Congonhas
Zelinho, prefeito de Congonhas, diz que barragem não deveria ter sido construída

Desde 2014, a CSN tenta obter uma licença ambiental para aumentar o tamanho da barragem mais uma vez. O alteamento seria de 11 metros, passando dos atuais 76 metros de altura para 77, de acordo com a prefeitura.

O processo está em análise junto à Secretaria de Estado de Meio Ambiente mas gerou indignação entre a população local. O prefeito assumiu o compromisso de se manter contra a medida. Se o descomissionamento da barragem da CSN for confirmado, a briga em torno do alteamento deve ser deixada para trás.

Para a população, entretanto, diante da devastação causada pelo colapso da barragem em Brumadinho, não se pode esperar que a decisão fique para depois.

“Precisamos de uma solução de imediato”, diz Maria Augusta Fernandes Emediato Pereira, de 49 anos. “Depois de Mariana, as autoridades tomaram algumas atitudes, mas não foi o suficiente. Brumadinho reacende a preocupação. Mas o problema é que depois cai no esquecimento. Isso não pode acontecer novamente.”

Maria Augusta com as filhas
Maria Augusta mora com as filhas; a caçula não quer voltar para casa, com medo de a estrutura se romper

Viúva, ela mora em Cristo Rei, o segundo bairro mais próximo à barragem, com as duas filhas, Ana Júlia, de 18 anos, e Maria Gabriela, de 8 anos. Elas estavam de férias em Porto Seguro quando a barragem de Brumadinho rompeu. A caçula não queria voltar para casa de jeito nenhum. “Tenho medo”, diz sobre a estrutura.

Até as duas tragédias, a família não atinava para o que estava por trás daquelas paredes de terra, cobertas por uma gramínea verde, que avistam da varanda. “Só depois da tragédia a gente se deu conta do estava do lado da nossa casa”, assusta-se a jovem Ana Júlia.

Maria Augusta já pensou em se mudar com as filhas, mas diz que essa não seria uma solução. Afinal, o bairro continuará ali. Ela gostaria que a barragem fosse esvaziada e reintegrada à natureza. “As vidas têm que valer mais”, diz.

 

FONTE: BBC

Vereador de Brumadinho questionou Vale sobre segurança um mês antes da tragédia

FONTE: G1

Notícias falsas prejudicam trabalho de busca às vítimas em Brumadinho, diz bombeiro

Bombeiros alertam sobre Fake News em Brumadinho, na Grande BH

Imagens de ocorridos em outros locais, alertas de localização de desaparecidos, informações sobre soldados infectados devido ao contato com a lama. Notícias como essas têm circulado, especialmente em grupos de WhatsApp, causando ainda mais preocupação à população. Mas são todas falsas e têm atrapalhado o trabalho da força-tarefa empenhada na busca pelos desaparecidos na tragédia em Brumadinho.

“O serviço das forças de segurança tem sido bastante prejudicado com fake news, notícias falsas. Toda a veiculação desse tipo de notícia, quando é falsa, ela prejudica, e muito, e atrasa o importante trabalho que a gente está fazendo em relação à recuperação desses corpos”, destacou o porta-voz o porta-voz do Corpo de Bombeiros, tenente Pedro Aihara.

Bombeiros começaram a usar máscaras durante o trabalho de resgate das vítimas, em Brumadinho — Foto: Reprodução/TV Globo
Bombeiros começaram a usar máscaras durante o trabalho de resgate das vítimas, em Brumadinho — Foto: Reprodução/TV Globo

Ele explicou que sempre que acionados, o efetivo é deslocado até o ponto onde estaria a denúncia feita. Segundo Aihara, militares já foram retirados mais de uma vez da operação de buscas para conferir os supostos sumiços de pessoas nas matas.

Fomos muito prejudicados com informações falsas. Havia chegado notícias de que algumas pessoas haviam ficado perdidas em área de mata. Imediatamente, paramos o que estávamos fazendo e fomos para lá. Isso aconteceu por mais de três vezes e nada foi encontrado, disse o porta-voz dos bombeiros.

Intoxicação

A mais recente fake news foi a respeito de uma possível intoxicação dos soldados do Corpo de Bombeiros devido ao contato com a lama. O tenente Pedro Aihara destacou que há procedimentos para evitar eventuais doenças e que a corporação se baseia em laudos atestando o caráter não tóxico da lama.

“Como nossos militares ficam durante longos períodos expostos a essa água, a gente ministra um antibiótico, principalmente para prevenir o contágio de leptospirose, mas específico para a atuação de bombeiro. A população em geral não precisa se preocupar com isso. Esse antibiótico só deve ser administrado na população em geral se ela apresentar sintomas”, explicou.

NOTA ÁREA DE VEGETAÇÃO IMPACTADA PELOS REJEITOS – SEMAD

IEF MAPEIA ÁREA DE VEGETAÇÃO IMPACTADA PELOS REJEITOS

 

Layout 1 - Zona de Amortecimento

 

O Instituto Estadual de Florestas (IEF) divulga os dados da avaliação preliminar dos impactos dos rejeitos provenientes do rompimento da Barragem B1, da Mina Córrego do Feijão, sobre a área de vegetação do local.

As análises foram feitas por meio de interpretação de imagens de satélite dos dias 18 de janeiro, data anterior ao rompimento, e 27 de janeiro, data posterior ao desastre.

A área total ocupada pelos rejeitos, que parte da Barragem B1 até o encontro com o Rio Paraopeba, foi de 290,14 hectares. Deste total, a área da vegetação impactada representa 147,38 hectares.

O Instituto Estadual de Florestas divulga também a avaliação dos impactos dos rejeitos dentro de unidades de conservação.

Na APA SUL, foram impactados 10,68 hectares. Essa parcela representa essencialmente parte da própria área da Barragem B1. Além disso, os rejeitos afetaram parte da zona de amortecimento do Parque Estadual da Serra do Rola Moça, totalizando 225,20 hectares.

O levantamento será usado para avaliar a extensão dos danos sobre a flora nativa e determinação de medidas compensatórias e reparadoras.

O IEF permanece acompanhando os danos ao meio ambiente provenientes do rompimento da Barragem B1 e avaliará possíveis outras áreas de vegetação e unidades de conservação que, por ventura, venham a ser impactadas.

 

Layout 2 - APA Sul

 

 

Vegetacao Impactada 1

 

Vegetacao Impactada 2

 

 

Secretário de Meio Ambiente de Minas Gerais dá entrevistas para Bom dia Minas e Rádio Itatiaia

O secretário de Meio Ambiente de Minas Gerais Germano Vieira esclareceu algumas dúvidas sobre os processos de licenciamento no Estado, em entrevistas para o programa Bom Dia Minas e para o jornal da Rádio Itatiaia. Confira as matérias abaixo.

 

Entrevista do Bom dia Minas

Divulgação / Globo Minas

Entrevista da Rádio Itatiaia.