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Agência promete fim de barragens como a de Brumadinho e aponta lobby

Diretor diz que há lacunas na lei, pressão do setor e falta de recursos para fiscalização

O diretor da ANM (Agência Nacional de Mineração) Eduardo Leão diz que falta de recursos, lacunas na legislação e lobby das mineradoras são entraves à fiscalização no setor e promete, como resposta à tragédia em Brumadinho (MG), medidas para acabar com barragens semelhantes no Brasil.

Estabelecida oficialmente no fim de 2018, a agência é responsável pela aprovação e fiscalização de projetos de mineração no país. O órgão herdou a estrutura do extinto DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral).

À Folha Leão defendeu a atuação do DNPM após o rompimento da mina da Samarco em Mariana(MG), em 2015, que deixou 19 mortos, mas reconheceu que as medidas tomadas não foram suficientes para evitar a tragédia da Vale —até esta quarta-feira (6), eram 150 mortos e 182 desaparecidos.

Após Mariana, a ANM proibiu a construção de novas barragens com alteamento a montante, como as duas que romperam, e criou um sistema online de acompanhamento de dados de monitoramento das barragens, que devem ser enviados a cada 15 dias pelas mineradoras.

Leão diz que as últimas informações enviadas pela Vale a respeito da barragem 1 da mina de Córrego do Feijão não indicavam problema.

Por isso, uma medida de reforço é a exigência de monitoramentos diários.

Outra, “mais enérgica”, segundo ele, é a publicação de portaria determinando o fim das barragens com alteamento a montante, como as de Mariana e Brumadinho, técnica considerada menos segura. São 88 estruturas no país.

Segundo o diretor da ANM, o texto deve ser finalizado ainda nesta semana, obrigando os empreendedores a retirar os rejeitos e devolver a área à natureza ou realizar obras mudando as características das barragens para outro método.

“Estamos tentando dar um basta nisso”, afirmou. “Esse tipo de barragem é imprevisível. Isso não é uma coisa só no Brasil, é internacional. No Canadá, por exemplo, é conhecida como monstro silencioso.”

Mais barato, por usar menos terra em sua construção, o alteamento a montante é proibido no Brasil desde 2016. A eliminação das existentes, porém, implicará custo extra para as mineradoras, o que pode criar resistências.

“A gente sabe que a mineração é muito importante, não só para desenvolvimento do Brasil mas para o desenvolvimento local. Nosso interesse não é quebrar nenhum município, não é deixar pessoas desempregadas”, diz.

Segundo Leão, a agência finaliza os estudos sobre prazos e condições para as obras nas barragens. Há grande preocupação no setor com as estruturas instaladas em minas de ouro, que contêm produtos químicos prejudiciais à saúde e ao ambiente.

Leão reclama que a agência não tem capacidade de fiscalizar com maior frequência as 740 barragens de mineração. O quadro de servidores caiu de 1.140 em 2010 para 820 em 2018. Neste ano, 300 entram em condições de se aposentar.

Por lei, o órgão tem direito a 7% da arrecadação de royalties, que em 2018 somaram R$ 3 bilhões, mas a cota nunca é entregue.

Ele se queixa ainda de lacunas na legislação, como indefinições sobre a atribuição para aprovar planos de emergência e as baixas multas.

Na mina Córrego do Feijão, o refeitório estava localizado abaixo da barragem. O plano previa que seria atingido em um minuto, em caso de acidente. “Aquele refeitório não deveria estar ali”, diz Leão, que já foi funcionário da Vale.

As multas foram objeto de projeto de lei no Senado, que subiria a punição máxima dos atuais R$ 3.600 para R$ 30 milhões foi engavetado.

“Tanto a questão de barragens quanto a questão das multas já foram pauta no Senado e realmente não andaram”, reclamou Leão, dizendo crer que “tenha tido algum lobby para arquivar esses projetos”.

Quando lhe foi perguntado se esse lobby prejudica o trabalho da agência, respondeu que sim.

“Infelizmente, tem empresas sérias, que a gente conhece, que em alguns momentos acabam formando um cartel que não permite esses avanços”, disse, sem citar nomes.

FONTE: Folha de São Paulo

Rompimento da barragem prejudica 180 famílias que dependiam da agricultura

Uma vida no campo dedicada às plantações. A rotina de cerca de 180 famílias de produtores rurais de Brumadinho, na Grande BH, foi destruída pelos 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério após o rompimento da barragem Córrego do Feijão. As verduras e legumes eram vendidos na Central de Abastecimento de Minas Gerais (CeasaMinas), sacolões de Belo Horizonte e de municípios da região metropolitana.

Dentre as pessoas que tiveram as hortas completamente devastadas, listadas pelo Ministério da Agricultura, estão os irmãos Antônio Francisco de Assis, de 63 anos, e Israel Nunes Barbosa, de 53. Criados na lavoura com os pais, em Rio Vermelho, no Vale do Jequitinhonha, os dois tocavam uma plantação que, segundo eles, “produzia de tudo”, há mais de 17 anos no bairro Parque das Cachoeiras.

Por dia, dois caminhões-baú abarrotados de insumos deixavam a área de 20 hectares. A última remessa colhida foi entregue na capital mineira na quinta-feira, antes da tragédia. “A minha terra acabou, a produção não existe mais. Estou sem saber o que fazer, sem destino. Além disso, o sistema de irrigação está todo debaixo do barro”, lamentou Antônio, conhecido em Brumadinho como Tonico.

A horta administrada por ele foi engolida pelos sedimentos, restando apenas poucos pés de alface, tomate, pimentão e jiló. Abalado, ele já foi ao hospital três vezes após passar mal. “Não durmo direito desde a semana passada. Minha pressão que sempre foi controlada subiu, estou tomando remédio”, conta.

Casado, com dois filhos e sem ter o que produzir e colher, Tonico diz que ainda não “teve cabeça” para pensar em como vai fazer, a partir de agora, para garantir o sustento da família. “Como vou abandonar o lugar em que conheço as pessoas, fiz amigos, construí minha vida?”. Ele diz que aguarda um contato da Vale.

A mineradora informou que realiza apoio humanitário não só aos familiares das vítimas, mas também aos produtores rurais. A empresa garantiu um repasse de R$ 15 mil a quem atuava no campo. O valor, entretanto, desagrada. “Com isso não compro nem um terreno”, afirma Antônio Francisco de Assis.

“A gente que cresceu no campo não sabe fazer outra coisa. É desesperador”

Braço direito do irmão, Israel fala com orgulho sobre a infância em Rio Vermelho, onde desenvolveu as habilidades para atuar no campo. Sem ter como exercer a profissão, ele pede que a Vale se comprometa a retomar as hortas em outro local para que as famílias recomecem as atividades.

“A gente que cresceu no campo não sabe fazer outra coisa. Queremos continuar tirando nosso sustento da terra. É uma tristeza imensa, desesperador”. Israel é pai de uma jovem de 18 e dois rapazes, de 16 e 22. “No tempo que não estão na escola, vinham cá. Aprendiam o trabalho”, conta.

O agricultor estava na horta no momento em que a lama avançou sobre a região – ele e a sobrinha, Adriana Leal, de 28 anos, filha de Tonico. “Estávamos preparando a colheita e começou um barulho muito alto de bambu caindo junto com uma fumaça de poeira. Só deu tempo de correr para a parte alta”, lembra Adriana.

Tudo se perdeu: alimentos, um galpão, estufas para a plantação e desenvolvimento de mudas, ferramentas e bombas para irrigação. Apenas canos do sistema hidráulico e parte do adubo ficaram intactos. “A nossa produção era feita com muito esforço. Comprando matéria-prima fiado, fazendo empréstimos. Não temos condições para reconstruir”, diz Adriana. *(Colaborou Daniele Franco)

Flavio Tavares / Hoje em Dia

 

FONTE: Hoje em Dia

NOTA DESCARACTERIZAÇÃO DE BARRAGENS COM ALTEAMENTO – SEMAD

SEMAD E FEAM DETERMINAM DESCARACTERIZAÇÃO DE BARRAGENS COM ALTEAMENTO A MONTANTE

O secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Germano Vieira, determinou a descaracterização de todas as barragens de contenção de rejeitos de mineração, alteadas pelo método a montante, em Minas. A medida foi estabelecida por meio da Resolução Conjunta SEMAD/FEAM nº 2.765, publicada no Diário Oficial de Minas Gerais, nessa quarta-feira, 30 de janeiro. A medida abrange não apenas novas barragens, mas todas as existentes no Estado, inclusive as inativas.

O alteamento a montante é o método de construção cujos diques de alteamentos são feitos apoiados nos rejeitos previamente depositados na barragem. Pela resolução, os empreendedores responsáveis por barragens alteadas por esse método e que ainda estiverem em operação devem promover a migração para tecnologia alternativa, visando à descaracterização do barramento.

A implantação de destinação final com nova tecnologia deverá ser executada no prazo máximo de 2 anos, a contar da apresentação do plano de trabalho, por parte da empresa.

 

“Diante do cenário que se apresenta, nossa sociedade não está disposta mais a ser destinatária de impactos ambientais e humanos, por esta razão já estabelecemos medidas concretas para, no âmbito das competências da Secretaria, assegurar à sociedade que estruturas como as de Fundão, em Mariana, não sejam mais analisadas no órgão ambiental, ainda que tenham sido propostas por empreendedores”, pontua Germano Vieira.

O secretário esclarece ainda que apoia a posição do governo federal pela alteração imediata nos protocolos e diretrizes da Política Nacional de Segurança de Barragens, Lei Federal nº 12.334, de 20 de setembro de 2010, em razão da ruptura da Barragem B1, do Córrego do Feijão, no Município de Brumadinho, Estado de Minas Gerais.

 

DESCARACTERIZAÇÃO DE BARRAGENS

 

Entende-se pelo conceito de barragens qualquer estrutura em um curso permanente ou temporário de água para fins de contenção ou acumulação de substâncias líquidas ou de misturas de líquidos e sólidos, compreendendo o barramento e as estruturas associadas.

 

As barragens classificadas como inativas são aquelas que não estão recebendo aporte de rejeitos oriundos de sua atividade fim há mais de 12 meses, mantendo-se com características de uma barragem.

Já o processo de descaracterização é aquele no qual a barragem deixa de possuir as características de barragem, ou seja, passa a não operar como estrutura de contenção de rejeito, sendo destinada à outra finalidade. Enquanto o rejeito é o material descartado das operações de tratamento posteriores à lavra, com objetivo de fragmentar e concentrar o minério com a utilização de água ou reagentes no processo.

 

‘Foram tirados do mapa’, afirma ambientalista sobre córregos de Brumadinho

Córrego do Feijão foi destruído pela lama da barragem

 

Integrantes dos comitês de bacias hidrográficas do Rio das Velhas e São Francisco demonstraram preocupação com o desaparecimento dos córregos do Feijão e Ferro do Carvão, durante coletiva realizada na manhã desta quarta-feira (30), em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Foram totalmente destruídos, tirados do mapa. E ainda houve enorme comprometimento do Paraopeba, porque (o rejeito) ficou depositado no leito do rio”, afirmou Marcus Vinicius Polignano, integrante do Manuelzão.

Segundo ele, os rejeitos estão chegando a Pará de Minas, na região Central do Estado. Na terça-feira (29), a Vale informou que iria colocar uma cortina de contenção no local, para impedir que o conteúdo afete a captação de água da cidade. Até o momento, o barramento, no entanto, isso não foi feito.

A previsão do professor da UFMG é de que os rejeitos parem na Usina de Retiro de Baixo, em Felixlândia, e não cheguem à Usina de Três Marias e no rio São Francisco. “De toda forma é muito grave, compromete a qualidade da água e a captação, além do efeito sobre ecossistema”, disse.

Tragédia repetida

Segundo ele, é preciso ter atitudes e respostas claras sobre o que acontecerá com as outras barragens para que novos desastres não voltem a se repetir. “Há três anos ouvimos quase as mesas declarações. Estamos enterrando rios e pessoas. É inadmissível que continue essa política pública”, protestou Marcus Vinicius Polignano.

Para Anivaldo Miranda, do CBH Rio São Francisco, apenas os monitoramentos da água realizados pela Copasa e Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) não são suficientes. “É preciso trabalhar em prol da comunidade ribeirinha, recuperar o Paraopeba e toda sua bacia”, disse.

Tribo Pataxó

Na terça-feira (29), o cacique de uma tribo residente na região de Brumadinho pediu ajuda médica para os moradores. Segundo Hãyó, o cheiro da água está adoecendo os índios, que também estão sem alimento.

A tribo é composta por 27 famílias, com número entre 80 e 100 integrantes.

 

FONTE: Hoje em Dia 

Porta-voz desmente que bombeiros tenham sido intoxicados pela lama

(foto: Alexandre Guzanshe/EM )
O porta-voz do Corpo de Bombeiros, tenente Pedro Aihara, desmentiu, no início da tarde desta quarta-feira, que os bombeiros teriam sido intoxicados com a lama dos rejeitos das barragens da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho. Ele explicou que as náuseas sentidas pelos oficiais, nos últimos dias, são provocadas por efeito colateral de antibióticos.
De acordo com Aihara, toda água desconhecida pelo Corpo de Bombeiros é tratada como poluída.  Assim, antes das buscas, é necessário que os agentes tomem medicamentos para prevenção de leptospirose. Esse remédio estaria causando náuseas em alguns militares.
A corporação ainda informou que, de acordo com os dados da Vale fornecidos às autoridades, os rejeitos da Mina Córrego do Feijão não são tóxicos.

Contra indicação

O tenente alertou a população de que a medicação com antibióticos como forma de prevenção à leptospirose deve ser restrita aos bombeiros que ficam expostos ao risco por muitas horas. No caso de populares, a indicação é procurar médicos antes de tomar qualquer remédio.

*Estagiário sob supervisão do editor Carlos Marcelo

‘Sem ajuda, dependemos da Vale’, diz prefeito de Brumadinho

Avimar de Melo Barcelos, do PV, cobra punição rigorosa à mineradora responsável pelo rompimento da barragem. Em entrevista exclusiva, diz que município depende também da ajuda de governos estadual e municipal

 

“O estado de Minas Gerais, por outro lado, prometeu nos ajudar, mas não posso acreditar: às vezes se recebe a multa e o dinheiro some”, afirmou o prefeito de Brumadinho
(foto: Fred Bottrel/EM/D.A Press)

 

Enquanto helicópteros trazendo mortos da lama cruzam os céus de Brumadinho, o prefeito da cidade, Avimar de Melo Barcelos (PV), tenta manter os pés no chão. E se equilibra no dilema entre cobrar punição à Vale – empresa responsável até o momento por 84 mortos e 276 desaparecidos desde o rompimento de uma barragem de rejeitos – e a dependência econômica do município com a atuação da mineradora. “O maior empregador privado em Brumadinho é a Vale, precisamos desses empregos também. Como fica a cidade toda desempregada?”, questiona, em entrevista exclusiva ao Estado de Minas.
Como o senhor vê a prisão dos cinco engenheiros que atestaram a segurança da barragem rompida?
 
Os responsáveis vão ter que pagar pelo erro. A Vale acabou com nossa cidade, destruiu a cidade toda. É a maior catástrofe em número de mortos e desaparecidos de que tivemos notícia. Tem que aparecer o responsável por isso. Não sei se são essas pessoas que foram presas, mas alguém tem que pagar.
Qual a situação do município com relação às multas já aplicadas à Vale?
O município aplicou total de R$ 100.750.000 em multas. O estado de Minas Gerais, por outro lado, prometeu nos ajudar, mas não posso acreditar: às vezes se recebe a multa e o dinheiro some. Sobre a multa do governo federal, não tenho também certeza se a multa virá para a cidade. Com Mariana, até hoje nada, como me contou o prefeito de lá. E a cidade parou. Tenho o medo de que Brumadinho também pare porque aqui nós dependemos da Vale. Praticamente 40% da nossa arrecadação vem da Cefem (Compensação financeira pela Exploração de Recursos Minerais) e grande parte do ICMS apurada também em relação ao Cefem. Então estamos em situação muito crítica. Se estado e governo federal abandonarem a gente, a cidade não vai ter como atender serviços essenciais da população.
 
O medo é repetir Mariana?
 
Exatamente. O prefeito de lá esteve aqui no fim de semana e disse que quase nenhuma multa havia sido repassada ao município. A situação dele é delicada e tenho esse medo, de o município ficar a ver navios. Aqui é muito grave, várias famílias desabrigadas, grande número de mortos e desaparecidos. E financeiramente o município não conseguirá sobreviver sozinho.
Qual a preocupação imediata?
Exigir dos bombeiros e da Defesa Civil que trabalhem incansavelmente em busca de pessoas com vida.
Até onde o senhor sabia, a barragem que se rompeu não apresentava riscos?
Era o que a Vale nos passava. Inclusive, quando este presidente da Vale assumiu, assumiu com o lema ‘Jamais Mariana’. Se esperássemos algo dessa natureza, solicitaríamos ao governo federal a fiscalização.
Não havia rotas de fuga, treinamentos de retirada, sirenes…
Tinha sirene, mas no dia não funcionou. Por isso pegou esse tanto de gente almoçando no refeitório. Como uma empresa do porte da Vale deixa um escritório e um refeitório abaixo da barragem, na mancha de alagamento? Isso não poderia ter ocorrido de forma alguma.
 
Diante do cenário de dependência econômica do município com a atuação da mineradora, o que o senhor enxerga de perspectiva?
As investigações vão apurar os responsáveis criminais, civis e também sobre a questão ambiental. O Ministério Público já está trabalhando neste sentido. Exigimos que o estado pedisse o bloqueio judicial de R$ 1 bilhão, para garantir o pagamento das indenizações. As multas devem demorar mais, mas em Brumadinho vamos jogar pesado, vamos ficar em cima, porque não vamos admitir o que foi feito em Mariana.
O senhor imagina esta cidade sem a Vale?
Se não tivermos o apoio dos governos estadual e federal, dependemos da Vale, não só financeiramente, para as contas da prefeitura, mas em matéria de empregos. Exigi do presidente da Vale que ele não demita nenhum funcionário da empresa. Que se paga os funcionários que estejam sem trabalhar neste momento.
Em Mariana, as demissões da Samarco prejudicaram bastante a economia local e a cidade viveu esse dilema entre chorar a tragédia e contrabalancear a questão financeira…
Por isso não podemos permitir que isso ocorra aqui. O maior empregador privado em Brumadinho é a Vale, precisamos desses empregos também. Como fica a cidade toda desempregada? É a chegada do dinheiro na cidade que faz o comércio funcionar. É uma questão muito complicada, principalmente neste momento em que estamos preocupados em resgatar vítimas vivas.

“Conclamamos o governo a não autorizar nenhuma nova barragem de rejeitos”, diz ONU

Em documento assinado por sete especialistas, a organização pediu uma investigação imediata, completa e imparcial da tragédia de Brumadinho

 

(foto: Guzanshe/EM/D.A.Press)

 

Relatores especiais de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) pediram, nesta quarta-feira, uma investigação imediata, completa e imparcial do rompimento da barragem I da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Grande BH.

O documento, assinado por sete especialistas da organização, ainda menciona a tragédia em Mariana, ocorrida em 2015.

Ao citar que dezenas de pessoas foram mortas e centenas ainda estão desaparecidas na tragédia, os especialistas da ONU solicitaram ao governo brasileiro que priorize as avaliações de segurança das atuais barragens e retifique os processos atuais de licenciamento e inspeção de segurança para que não ocorra novos desastres.
“Além disso, conclamamos o governo a não autorizar nenhuma nova barragem de rejeitos nem permitir qualquer atividade que possa afetar a integridade das barragens existentes, até que a segurança esteja garantida”, acrescentaram.
O documento ainda pede que os responsáveis pela tragédia sejam responsabilizados, perante à Justiça.  “Incitamos o governo a agir decisivamente em seu compromisso de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para evitar mais tragédias desse tipo e levar à justiça os responsáveis pelo desastre”.
Os relatores chegam a manifestar preocupação com as medidas de desregulamentação em matéria de proteção ambiental e social. Segundo eles, nos últimos anos, o Brasil vem apresentando descaso com o assunto.
Por fim, os especialistas, mencionando a mineradora Vale, pedem para que a empresa “atue de acordo com sua responsabilidade para identificar, prevenir e mitigar impactos adversos nos direitos humanos; a cooperar plenamente com as autoridades que investigam o desastre; e prover, ou cooperar, na remediação de danos causados através de processos legítimos”.

Redigiram o relatório os especialistas da ONU Baskut Tuncak, Relator Especial sobre as implicações para os direitos humanos do gerenciamento e disposição de substâncias tóxicas e rejeitos;  Léo Heller, Relator Especial para os direitos humanos à água potável segura e ao esgotamento sanitário; o Grupo de Trabalho sobre direitos humanos e corporações transnacionais e outras empresas:  Surya Deva, El%u017Cbieta Karska, Githu Muigai, Dante Pesce e Anita Ramasastry; David R. Boyd, Relator Especial para os direitos humanos e o meio ambiente.

*Estagiário sob supervisão do editor Benny Cohen

Descomissionamento: entenda o processo anunciado pela Vale para acabar com barragens iguais às de Mariana e Brumadinho

A mina do Feijão na região de Córrego do Feijão, em Brumadinho, dois dias depois do rompimento da barragem da Vale. — Foto: Douglas Magno/AFP

O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, anunciou nesta terça-feira (29) que irá fazer o descomissionamento das barragens com o chamado alteamento a montante, método utilizado nas estruturas que se romperam provocando tragédias em Mariana (MG), em novembro de 2015, e em Brumadinho (MG), na semana passada. Na prática, isso quer dizer que a empresa pretende “acabar” com as barragens desse tipo.

As dez barragens a montante da Vale que ainda não foram eliminadas estão inativas – ou seja, já não recebem mais rejeitos. Agora, com o processo de descomissionamento, a empresa pretende eliminá-las.

Schvartsman apontou que as possibilidades são esvaziar as barragens ou integrá-las ao meio ambiente: “Descomissionar significa deixa de ser barragens. São esvaziadas ou integradas ao meio ambiente”.

Em nota, a Vale disse que serão necessários três anos e R$ 5 bilhõespara “descaracterizar as estruturas como barragens de rejeitos para reintegrá-las ao meio ambiente”. A mineradora estima que o processo de descomissionamento ocorrerá ao longo dos próximos 3 anos.

Segundo a empresa, além da barragem do Córrego do Feijão, que rompeu em Brumadinho, serão desativadas 9 estruturas localizadas nas unidades de Abóboras, Vargem Grande, Capitão do Mato e Tamanduá, no complexo Vargem Grande, e de Jangada, Fábrica, Segredo, João Pereira e Alto Bandeira, no complexo Paraopebas, todas em Minas Gerais.

Especialistas ouvidos pelo G1 explicam que existem diferentes possibilidades para o trabalho de descomissionamento, com custos, efeitos e riscos diferentes.

Entenda o processo de descomissionamento de barragens — Foto: Alexandre Mauro/G1
Entenda o processo de descomissionamento de barragens — Foto: Alexandre Mauro/G1

Entenda o processo de descomissionamento de barragens — Foto: Alexandre Mauro/G1

Uma delas, segundo o Professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Miguel Fernandes Felippe, consiste em retirar os rejeitos das barragens por um processo de dragagem – na prática, os resíduos armazenados são “sugados” para fora da barragem.

Depois disso, a empresa avalia qual a possibilidade de aproveitar parte do material. O que não for utilizado, então, é separado. A água que puder ser retirada pode ser armazenada em outra barragem ou, se tiver condições, voltar aos rios.

Já os resíduos sólidos, ainda de acordo com Felippe, podem ser enviados a outra barragem, a um deposito seco ou até mesmo utilizado nas cavas das minas que já foram esgotadas – ou seja, os “buracos” causados pela empresa na exploração de minério seriam preenchidos com os resíduos da própria operação.

Em seguida, as estruturas da barragem são retiradas do local para que se comece o processo de recuperação do solo e reflorestamento. “Quando se fala em descomissionamento, a gente espera também a recuperação ambiental da área. Tem que reintegrar os elementos daquele ambiente, trazer o rio de volta, reconstituir a vegetação”, diz Felippe.

Mas o professor ressalva que todo esse processo depende de uma série de fatores, como a composição dos rejeitos e do solo. “Tem uma série de possibilidades técnicas”, aponta.

Paulo Lanzarotto, professor de engenharia da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), aponta que esse processo é bastante caro. Ele explica que uma alternativa mais barata prevê drenar a parte líquida dos rejeitos, cobrir o restante com terra e iniciar o processo de reflorestamento.

A vantagem, segundo ele, é a de eliminar os riscos de comprometimento da estrutura com infiltrações.

“Não tem mais acúmulo de água, porque a vegetação vai absorver”, diz Lanzarotto. Mas ele explica que os riscos de deslizamento pela pressão dos rejeitos continuam existindo. “Minimiza o risco por ter uma camada vegetal por cima, mas ele continua existindo. É muito parecido com o risco de uma superfície natural e inclinada.”

Os especialistas afirmam que não existe uma possibilidade 100% segura.

“Não existe risco zero. Qualquer que seja a estrutura ou tecnologia, vai gerar algum tipo de risco. Por isso que o monitoramento é importante”, alerta Felippe.

Carlos Barreira Martinez, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em engenharia hidráulica, também diz que o processo de descomissionamento não é simples e tem um custo elevado. Portanto não representa uma solução rápida para reduzir os riscos das barragens construídas pelo método de alteamento a montante.

“Vamos ter que entrar num processo de descomissionamento dessas barragens e tentar mitigar isso ao longo do tempo.”

Como funcionam as barragens de mineração — Foto: Karina Almeida e Alexandre Mauro/G1
Como funcionam as barragens de mineração — Foto: Karina Almeida e Alexandre Mauro/G1

FONTE: G1

Mais de 200 barragens em MG são classificadas como de alto potencial de dano e cinco como de alto risco, segundo ANA

Região afetada pela lama próxima a Brumadinho, MG. — Foto: Cadu Rolim/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Em todo o país, 3.387 barragens enquadradas na Categoria de Risco (CRI) alto ou com Dano Potencial Associado (DPA) alto, de acordo com a Agência Nacional das Águas (ANA), terão fiscalização priorizada.

(O G1 errou na publicação desta reportagem ao informar que o estado tinha 200 barragens consideradas de alto risco pela ANA. Na verdade, são 202 barragens com alto potencial de dano e 5 de alto risco. A informação foi corrigida às 8h20).

Em Minas Gerais, mais de 202 barragens são classificadas como de alto potencial de dano e cinco como de alto risco, segundo a Agência Nacional de Águas, caso elas se rompam.

Dano Potencial alto significa que, caso a barragem se rompa, poderá causar muitas mortes e grande destruição ambiental e material.

As cinco barragens especificadas como de alto risco ficam nas cidades de Riacho dos Machados, na Região Norte do estado; em Ouro Preto e em Itabirito, na Região Central; e duas em Rio Acima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

A determinação foi publicada pelo Conselho Ministerial de Supervisão de Respostas a Desastre do Governo Federal nesta terça-feira (29).

As barragens são de produção de energia elétrica, contenção de rejeitos de mineração, disposição de resíduos industriais e de usos múltiplos de água.

Agência Nacional de Águas (ANA), Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Agência Nacional Mineração (ANM) e governos estaduais serão responsáveis pela fiscalização.

O objetivo é tentar evitar tragédias como a de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e Mariana, na Região Central do estado.

FONTE: G1

Lama não deve chegar ao rio São Francisco, aponta novo boletim do Serviço Geológico